5.16.2006

Meio soul, meio Blues

- Eu nunca fui a Moscou...disse e foi caminhando em direção a porta, descartando parte do mapa que traçava os lugares já visitados...

- E você não me faz tão bem quanto você pensa...

Ele não disse nada. Olhar fixo para a paisagem. Lembrou do passado, quando sua grande preocupação era estudar para a prova de geometria, escolher o próximo livro e amassar a banana junto com a aveia...

Quando decidiu que não teria mais insônias? Já não lembra. Apenas obedeceu ao instinto, criou músculos, voltou a beber e a sonhar. Naquela manhã que decidiu sair de casa e cair no mundo, não pensou em destino. A companhia veio quase como consequência da liberdade. É que vez-em-quando precisamos deixar de ter tanto cuidado com oq amamos.. Deixar partir?

5.10.2006

Vermelho dia

Ando viajando muito e por isso estou calada aqui, gravitando ao redor do segredo, divagando nas idéias...
Meu tempo agora são semanas, e elas se arrastam lentas dentro da urgência do entorno. retorno. Ando tonta de acontecimentos, sedenta de desfechos. Felizes sempre. E tenho um pouco de sono, um pouco de melancolia, mente rápida ainda, muitas sensações e palavras raras. Ando prefirindo observar. Não penso agora em festa nem em luto, mas o sol que chega furando as manhãs de céu azul e vento frio ainda me abraça o desassossego. E me avermelha o dia.

4.18.2006

Bilhete Póstumo

Alguns versos do AGORA que me tomou pelas mãos em um fevereiro improvável...

(...) És minha invenção de amor. Olhos melancólicos
Os teus. Eu contigo em degredo.
Difícil tomar a face desse segredo cada vez mais longe
E partir e também ficar, embora encontrada a chave da porta mais secreta.
Se eu pudesse dizer: seja a paisagem de seda azul
E o último sol fortíssimo do ocaso -
Eu liberta enfim de tuas pupilas (...).

Fiquei sabendo hoje que a poeta e tradutora Dora Ferreira da Silva morreu no último dia 6. Em 2005, ganhou o Prêmio Jabuti com Hídrias, belo livro em que se destaca seu apreço pela palavra. Criadora da revista e centro de estudos Cavalo Azul, ela sempre esteve ligada à difusão da poesia. Vocacionada, Dora era uma dama, no mais cristalino sentido do termo...Descanse em Paz,querida.

4.07.2006

Bilhete de saudade

Às vezes me vem, sem aviso, um misto de saudade e calor, ausência e desejo, tristeza e vontade. É quando busco um abraço que não existe. É quando esqueço o que se passou e dou um grito mudo com teu nome. É quando não quero mais acordar amanhã. É quando não choro, pois é tão grande o desatino que não estou aqui, apenas sinto a dor de não sentir você. É quando luto com a necessidade de ir, partir. É quando respiro e dou o suspiro mais profundo — muito mais fundo que o fundo dos olhos, que o peito, que o mundo, pra tentar acalmar o que é puro neste sentimento. É quando minto em vão.

4.03.2006

Clarice Lispector sempre

"Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações que aqui caleidoscopicamente registro."
(Águas vivas, Lispector, p.38)

3.29.2006

Bilhete de partida

Sabe, como a chuva que quando cai corre pelos telhados, assim tem sido o meu tempo. Ando escorrendo por telhados que secam sob o sol. Eu que um dia já fui nuvem, caí pelos telhados e me perdi. gota a gota. E agora ando escorrendo em baldes. Me recolhendo em pequenas poças portáteis.
Falta pouco então é melhor já partir, e eu vou. E você fica. Deixa, eu tenho que ir, é necessidade. Eu preciso ter com o mar, com mais água eu viro marola. Preciso contar conchas; brancas. Talvez de tantas a minha. Quem sabe? Chover bem longe. Parto aos pingos para que você me deixe aos poucos, como um fim de chuva que morre atrás dos raios de sol.
E dia após dia você vai se esquecer de mim. Como uma luz que falha você começa a me perder. Como uma foto antiga de polaroid que borra a imagem você não vai notar o semitom em que me camuflo. E quando você menos esperar, aquele fim de tarde, aquela velha canção, ou um cheiro doce ou acre, um beijo particularmente longo, um chopp gelado em um dia diferente, você vai parar por um segundo e olhar tudo em volta, imaginando um déjà vu que num segundo surdo, talvez você não perceba e fique mudo, você nem vai saber como lembrar de mim...

3.28.2006

Bilhete-poema

Nós os perecí­veis, tocamos metais,
vento, margens do oceano, pedras,
sabendo que continuarão imóveis ou ardentes,
e eu fui descobrindo,
nomeando todas as coisas:
foi meu destino amar e despedir-me .
(Ainda, Pablo Neruda)